por Nazeem Muhajarine

Quando uma universidade assume um projecto de desenvolvimento internacional, traz consigo vários activos que o permitem trabalhar em parceria com as comunidades e sistemas locais. A capacidade de gerar novos conhecimentos através da pesquisa que muitas das vezes procura basear-se na experiência dos seus parceiros e ser relevante para eles, é um activo fundamental. O Projecto Saúde Materna Moçambique-Canadá adoptou esta abordagem. Três projectos de pesquisa – o estudo das experiências maternas, o estudo das casas de espera para mulheres grávidas e o estudo dos quase-perdas maternas – já criaram novos conhecimentos que são valorizados pelos parceiros e comunidades locais, bem como pelos pesquisadores. E ainda há mais por vir.

Este relatório apresenta uma actualização de cada um destes três projectos de pesquisa. Nos próximos meses, à medida que concluímos o sétimo ano do projecto, esperamos partilhar os resultados finais e discutir a forma como estes informam as decisões nos sistemas de saúde e têm impacto nas comunidades locais, especialmente nas mulheres e raparigas.

Projecto 1 | O Estudo das Experiências Maternas chegou a um momento empolgante em que todos os dados foram recolhidos, transcritos e traduzidos de Xitswa ou Chope (línguas locais) para português e depois para inglês. Os dados compilados em ficheiros de dados individuais – séries de histórias – reflectem as conversas em curso partilhadas pelos participantes da pesquisa. Estamos agora prontos para efectuar análises longitudinais destas experiências ricas e variadas que as mulheres partilharam de forma tão corajosa e graciosamente.

Terezinha da Silva (em pé) dirige a sessão de formação para o Estudo da Experiência Materna

Foram realizadas três rondas de entrevistas presenciais a mulheres, incluindo raparigas, em 10 das 20 comunidades rurais em que o projecto actua. Primeiro, com 50 mulheres, gerando um conhecimento de base sobre as experiências das mulheres nas zonas rurais durante a gravidez e o parto, e sobre os contextos das suas vidas em geral. Seguiram-se duas rondas de entrevistas aprofundadas com um subgrupo de 20 mulheres. A nossa assistente de pesquisa em Inhambane, Assucena Maite, provou ser incrivelmente atenciosa e hábil na sua capacidade de envolver uma diversidade de mulheres em conversas marcadamente difíceis – por exemplo, mencionando o mau-atendimento no sistema de saúde; violência doméstica; sofrimento por crianças falecidas; sexo/sexualidade e poder; casamento prematuro e forçado; juventude e educação sexual – extraindo as suas articulações de esperança para o futuro. Com base nestes dados de pesquisa, Denise Kouri realizou as análises da primeira e segunda rondas, em colaboração com a IP do estudo, Sylvia Abonyi, e com os restantes membros da equipe da pesquisa. Uma contribuição imediata destes resultados da pesquisa foi o desenvolvimento de ferramentas de ensino que o projecto tem vindo a utilizar com membros da comunidade e profissionais de saúde. Os resultados da primeira e da segunda ronda de entrevistas foram partilhados com os parceiros, profissionais e gestores de saúde de Moçambique, que ficaram visivelmente comovidos com as histórias das mulheres, e inspirados a implementar mudanças nos cuidados maternos. Nesta penúltima fase de análise e reflexão, estamos expectantes em completar o círculo de cada história para aprofundar o seu impacto combinado na política, nos cuidados de saúde e nos contextos comunitários.

Nadege Uwamahoro instruindo colectores de dados antes de realizarem entrevistas piloto sobre as Casas de Espera para Mulheres Grávidas

Projecto 2 | A pesquisa sobre as Casas de Espera para Mulheres Grávidas é um estudo multisectorial que visa acrescentar novos conhecimentos sobre como e porquê as CEMG contribuem eficazmente para partos saudáveis, em que situações ou contextos e para quem. O projecto iniciou uma avaliação realista abrangente de cinco casas de espera para mulheres grávidas, construídas como parte da estratégia do projecto para reduzir a mortalidade materna em Inhambane. As avaliações realistas transcendem as tradicionais, procurando desenvolver uma teoria sobre as razões pelas quais as intervenções funcionam ou não funcionam, em vez de se limitarem a avaliar se uma intervenção funciona. O objectivo principal é melhorar a compreensão da aderência e não aderência das CEMG entre mulheres, famílias, comunidades e intervenientes do sistema de saúde. Isto implica examinar as circunstâncias, as motivações e as condições em que as CENG são utilizadas. A pesquisa constrói e facilitará a melhoria das teorias que desenvolvemos através de uma análise realista da literatura sobre as CEMG nos países de baixa e média renda, publicada no BMJ Saúde Global.

Através de uma concepção comparativa, a pesquisa irá comparar os centros de saúde recém-criados pelo projecto em Vilankulos, Homoine e Chipole com os centros de saúde pré-existentes em Quissico, Inharrime e Mapinhane. Este projecto visa iluminar o papel do ambiente físico de um centro de saúde e outras diferenças contextuais, incluindo diferenças nas abordagens à prestação de serviços nas instalações participantes. Este projecto de pesquisa é coordenado e liderado por Nadege Uwamohoro, que recrutou com sucesso colectores de dados locais e reuniu um grupo de trabalho composto por representantes da direcção provincial de saúde, das unidades de saúde participantes e dos oficiais de apoio comunitário dos distritos relevantes. Os colectores de dados e os membros do grupo de trabalho foram submetidos a uma orientação e formação exaustivas, que lhes permitiram testar no terreno as ferramentas da pesquisa e recolher dados de base.

Projecto 3 | Por cada morte materna (um acontecimento trágico por si), algumas estimativas indicam que 4 a 5 mães evitam a morte. Em Inhambane, não sabemos quantas mães têm situações de quase-perda. Os Estudos de Quase-perda Materna em Inhambane foram concebidos para preencher esta lacuna – e mais. Usando os dados abstraídos do estudo MNM 1.0 em dois hospitais, Maud Muosieyiri, que está a realizar a sua pesquisa de mestrado, determinou que os critérios clínicos adicionais identificaram mais MNMs do que usando os critérios clínicos originais da OMS. Especificamente, marcadores clínicos como Hipertensão, Anemia e Distocia melhoraram a capacidade dos indicadores clínicos para identificar MNMs. Além disso, a distância de casa ao hospital, o tipo de hospital e a idade da mãe influenciaram significativamente a identificação de MNMs.

Fernanda André entrevistando uma mãe para o Estudo de Quase-perda Materna – Inharrime – Zavala, no dia 22 de Setembro de 2022

O estudo MNM 2.0, que foi alargado para incluir mais dois hospitais regionais na província de Inhambane, recolheu dados de 638 mulheres grávidas internadas nas maternidades. Para a sua tese de doutoramento, Fernanda André acompanhou a componente quantitativa, os dados recolhidos pelo hospital, com entrevistas qualitativas a 43 mulheres que foram classificadas como tendo vivido uma quase-perda. Estas mulheres residiam na zona rural de Inhambane, há mais de 8 km do hospital, sem vias de acesso ou meios de transporte adequados. Estes dados estão actualmente a ser analisados, e o objectivo é ter resultados até ao final do outono de 2023.

Compilado por Nazeem Muhajarine, Pesquisador Principal, Projecto SMMC

Colaboradores: Jessie Forsyth, Denise Kouri (Estudo da Experiência Materna), Nadege Uwamohoro (Estudo das Casas de Espera para Mulheres Grávidas), Maud Muosieyiri, Fernanda André (Estudos de Quase-Perdas Maternas).