Por Jessie Forsyth com Geromina Gouleau, Estagiária do Projecto

Em Fevereiro, o nosso Projecto levou a cabo uma iniciativa de formação durante uma semana com destaque para a prestação de cuidados de saúde humanizados e sensíveis ao género, para 20 profissionais de saúde e gestores das 7 novas unidades sanitárias construídas pelo Projecto e seus respectivos distritos na província de Inhambane. A formação, realizada em parte numa sala de aula em Maxixe e em parte na comunidade parceira de Inhapupo, Homoine, foi organizada pela Argentina Munguambe, a Coordenadora de Formação do Projecto, em colaboração com a DPSI.

O termo “humanização” é usado em Moçambique para significar o processo de transformação das atitudes e comportamentos dos profissionais de saúde para resultar em cuidados de saúde mais respeitosos, compassivos e responsivos. Representa uma grande prioridade na política nacional de saúde que é consistente com o objectivo principal do nosso Projecto de fortalecer a saúde sexual, reprodutiva, materna e neonatal por meio de cuidados sensíveis ao género e humanizados e comunidades fortes e prestativas. O empoderamento de género, a humanização e o engajamento da comunidade estão intimamente ligados à melhoria da saúde materna. Vivendo em comunidades rurais e isoladas, as mulheres alcançadas através deste Projecto dizem ter um poder de decisão limitado em relação a suas próprias vidas.

Humanizar as práticas de cuidados de saúde ajuda a abrir a discussão e a aprofundar a compreensão das questões sociais que as mulheres enfrentam. Quando os profissionais de saúde se tornam mais conscientes dos desafios que as mulheres enfrentam, eles e elas se tornam mais compassivo/as e respeitoso/as.

Durante a sessão de uma semana, vários temas foram discutidos, incluindo a melhoria de cuidados pré-natais, a relação entre as desigualdades de género e a mortalidade materna e neonatal, e a gestão humanizada dos centros de saúde de acordo com as recomendações do governo.

Envolvimento da comunidade e aprendizagem experiencial

Uma parte importante das sessões incluiu uma viagem dos participantes para uma comunidade próxima, Inhapupo, para um dia de aprendizagem mútua com membros dos comités comunitários de saúde e juventude. O grupo fez um exercício usando uma história fictícia, mas realista de uma jovem rapariga que foi forçada á um casamento precoce. A actividade incluiu um exercício de escuta activa como parte da abordagem centrada na pessoa, seguido de uma encenação da escuta activa num contexto profissional. Durante a encenação, os facilitadores pediram aos participantes que demonstrassem uma situação num centro de saúde onde uma utente procurava um médico ou uma enfermeira. Os participantes desempenharam os vários papéis de provedores de cuidados de saúde, da utente e das pessoas presentes no centro de saúde. Quando a utente, uma mulher grávida, chegou, ela foi parada por um agente de limpezas que lhe disse para voltar para casa, dizendo que ela ainda não estava no tempo de fazer uma consulta com o médico.

Este exemplo mostra que uma utente pode encontrar muitas pessoas que interferem nos seus cuidados antes de ser atendida por um profissional de saúde, enfatizando que as barreiras aos cuidados de saúde incluem não apenas os grandes desafios logísticos (falta de transporte, fundos, estradas, pessoas para ajudar a cuidar de crianças em casa, etc.), mas também os maus cuidados e a falta de escuta ou desrespeito vividos na unidade sanitária. Durante o último dia da formação, o grupo passou algum tempo reflectindo em conjunto e tirando lições da formação. Uma participante falou sobre como “a experiência na comunidade abriu [seus] olhos para muitas coisas que [ela] estava a fazer, sem intenção, que desencorajariam as pessoas de ir ao centro de saúde.” O tempo gasto aprendendo em conjunto com os membros da comunidade permitiu que essa participante se visse através dos olhos dos membros da comunidade e reavaliasse práticas e comportamentos a partir dessa perspectiva, abrindo assim a possibilidade de transformação.

A importância da coordenação e colaboração

Por meio do balanço final, surgiu a importância de uma forte coordenação e de uma colaboração respeitosa entre os diversos actores da saúde, de modo a garantir um atendimento humanizado aos utentes. De facto, considerando como as comunidades e os serviços de saúde estão organizados na província de Inhambane, parece essencial que todos os que desempenham um papel importante possam partilhar um discurso comum. O trabalho do Projecto realizado com as comunidades tem um impacto extremamente positivo, uma vez que reúne profissionais de saúde, líderes comunitários, membros da comunidade e provedores comunitários de cuidados de saúde, incluindo curandeiros e parteiras tradicionais. Eles podem então discutir o tema ou problema conjuntamente, de modo a encontrar as soluções mais adequadas, mas também aprender uns com os outros, reflectindo um dos princípios fundamentais do Projecto que é a aprendizagem mútua. A melhoria geral da coordenação e da colaboração respeitosa para cuidados de saúde humanizados, juntamente com a aprendizagem e partilha de experienciais significativas, fortalecerá, portanto, a saúde materna.